Você tá aí?
Caramba! Esse escuro é complicado. Cadê você menina linda que eu procuro? Menina de sorriso fácil. Menina de carinhos longos. Menina doce de voz fina e melíflua. É você aí atrás? Opa, C$#@! Tropecei. Deve estar do outro lado. É você aí perto da janela? Drogaaaaaaa! Não acho. Opa, opa. Ali, encolhida na cama... você ta aí? Sim.
Como é que não te vi antes?!
O verdadeiro túnel do tempo.
Eu reclamava de tudo. Era a tevê que tinha uma programação medíocre, eram meus amigos que se preocupavam com problemas fúteis, era a Copa que no meu tempo era muito melhor jogada... E então cheguei à conclusão que eu estava velho. Mas não era daqueles velhinhos agradáveis, não. Era azedo. Um velho solitário e amargurado com o mundo e com a vida. Só sabia dar ordens e falar, mas nunca dava ouvidos aos outros. Me sentia superior. Ninguém ali estava ao meu nível para uma conversa. Passei a viver da casa para o bar e do bar para casa. Sempre só. Foi então que resolvi mudar meu trajeto de ida ao bar para comprar um jornal. E a moça que trabalhava na banquinha era linda. Começou a conversar comigo, e me senti inferior, ao invés de superior. Toda a segurança que eu tinha em tudo o que falava sumiu quando ela perguntou se gostei da nova diagramação do jornal que eu acabara de comprar. E, em três minutos, eu rejuvenescia 60 anos. Passava a ter de novo um frio na barriga. Passei a comprar o jornal todo dia no mesmo horário, só para encontrar a bela menina da banquinha. Sim, eu estava completamente apaixonado. Depois de um mês nessa rotina, fui comprar meu jornal, mas desisti quando vi que não era ela que estava lá. No dia seguinte fui novamente, e ela novamente não estava. Perguntei pro senhor que cuidava do estabelecimento e ele me disse que ela estava trabalhando em outra banquinha do outro lado da cidade, que era mais perto da casa dela. Voltei para a casa totalmente decepcionado. Cheguei a pegar ônibus umas três vezes para comprar meu jornal na nova banquinha que ela estava trabalhando, e inventava desculpas esfarrapadas por estar lá e fingia uma surpresa por vê-la. Ta, ela apenas fingia que acreditava nisso. Até ria de como eu ficava nervoso pra inventar uma mentirinha dessa. E assim ainda levo meu amor platônico. Cinco minutos na presença da bela menina e milhares de cinco minutos apenas pensando nela.
O segredo das primogênitas..
Resolvi filosofar sobre a minha vida. Cheguei à conclusão que já me interessei por muitas meninas, já me envolvi com algumas e me apaixonei de verdade por pouquíssimas. E, parando pra pensar um pouco, elas não tinham nada
Mais uma explicação barata do que é o amor.
Perguntaram-me se eu esqueci meu último amor. É claro que não. Amores não são esquecíveis. Paixões, sim. Amores, nunca. Amores podem ser arquivados como processos criminais não resolvidos. Mas a qualquer hora podem ser reabertos. Não dependem do tempo, nem da circunstância. Amores são sempre incondicionais. Amores são cumulativos. Fidelidade é respeito, e não amor. Mas respeito é uma das várias formas de provar o amor.
Óculos escuro.
Eu estava triste. Todos notavam. E vinham perguntar-me o que eu tinha. Eu respondia que era sono. Alguns poucos acreditavam. Aos que não acreditavam, eu dizia que era sono e gripe. Agora tinha mais alguns que acreditavam. Ainda restavam alguns querendo saber se era só isso mesmo. Eu acabava dizendo que briguei com a minha mãe. Aí, todos acreditavam. Era fácil mentir que não era tristeza de amor. Era só colocar um óculos escuro, e todos acreditavam em mim.
Conversa na cama.
Desespero. Viro pra lá e pra cá. Insônia. Preciso gritar. Mas não posso. É madrugada. Se grito, todos acordam. Prefiro que todos durmam. O meu desespero é meu. Só meu. Não divido. Sempre dividi. Não dá certo. Preciso me manter firme. Preciso de uma armadura. Preciso me esconder. Mas não sei se consigo. Calma, calma. Não é pra tanto. Nem fiquei mal. As vezes eu exagero. Quer dizer, não sei se exagero. De repente é só um excesso de sinceridade. Não, não. Não pode ser sincero. Isso é doença. Me deixa sem dormir. Sem vontade de viver. Calma. Não é pra tanto. Não é pra tanto? Eu sei de cor como funciona. Não fui pego desprevenido. Já imaginava o que poderia acontecer. Até tentei lutar contra. Tentei? Ou fechei os olhos e segui em frente? Não me confunda. Calma. Tá tudo sob controle. É só agir com frieza. Mas pra ser frio eu tenho que me convencer se é isso mesmo que eu quero. E é isso que eu quero? Eu não sei. Me conheço tão bem. Sou teimoso. Nem eu mesmo consigo me convencer. Eu preciso gritar. Mas é madrugada. Deixa eu dormir. Quando acordar, eu grito. Ou desisto de gritar.
Sonho ou pesadelo.
Estávamos milhares e milhares de quilômetros distantes. Estávamos? Eu passando a noite na capital francesa. E você, onde estava? Teoricamente, estava no sul do Brasil. Meu país tropical que ganhou a bênção de ser lindo por natureza e miserável em seu povo. O Brasil pode ser um sonho ou um pesadelo. Depende a forma de olhar. Mas enfim, isso não é um texto político. É apenas um relato. Naquela única noite que passei em Paris, você resolveu aparecer em meu sonho. Um sonho “bom”. “Agradável”. Se não fosse você que tivesse aparecido. Cheguei a acordar no meio da noite e tentar voltar a dormir sonhando com outro alguém. Mas não deu certo. Você voltou ao meu sonho. E sua presença marcou meu domingo
Casa Fantástica II.
Emerson, rapaz humilde que tem como grande sonho morar na mansão que passa na frente quando vai para a escola, resolveu deixar a mãe Carmem e o pai Celso apenas discutindo sobre seu futuro enquanto ele fazia planos mais concretos. Depois de ficar tardes e tardes de suas férias vendo fotos da casa, enfim voltaram às aulas, e lá, novamente ele passou. No terceiro dia de aula, ficou livre com duas horas de antecedência devido à falta de um professor que tinha duas aulas seguidas após o recreio. Eis que Emerson foi até a frente da casa de seus sonhos e ficou olhando. Atenciosamente olhava tudo. Foi então que notou que a piscina estava com uma cor meio esverdeada. Nisso Emerson viu uma luz. E não demorou muito pra colocar sua idéia
Paraíso.
Eu estava distraído. Fui atravessar a rua. Olhei para um lado. Não vinha carro. Andei um pouco. Olhei para o outro lado. Um ônibus se aproximava ao som de uma buzina. Morri. Abro os olhos e estou num elevador com um anjo segurando uma prancheta ao meu lado. Ele apertou o botão P do elevador. Perguntei o que significava. Ele falou que eu estava indo para o paraíso. Cheguei lá e era tudo perfeito. Um paraíso. Era uma cobertura a beira-mar. Numa televisão de plasma de
Casa Fantástica.
Em 1994, numa favela do subúrbio de Curitiba, nascia Emerson. Filho de dona Carmem Maria e seu Celso, desde muito pequeno se tornou um menino ambicioso e sonhador. Não que fosse roubar o que queria por ambição. Pelo contrário. Emerson sempre gostou mesmo é do jeito correto e mais difícil de conquistar o que quer. De uns 4 meses para cá cismou que, quando crescer, irá comprar um casarão com piscina e quadra poli esportiva, que ele sempre vê no caminho para a escola. Há um mês de férias, sem passar na frente do velho casarão, seu pai achou, sem sucesso, que ele iria tirar isso da cabeça. Celso tem muito medo que o filho se decepcione com as esperanças que tem. Ali onde moram, é raro alguém se dar bem na vida. Quando acontece, ou é por virar jogador de futebol, ou traficante. Traficante, eu aposto que Emerson não virará. E jogador de futebol, apesar dele ter algum talento, é muito difícil. Ele joga bem, mas nunca foi o melhor. Porém sempre faz um ou outro golzinho quando joga pelo time do colégio. E é nisso que dona Carmem Maria se apega quando entra em discussões sobre o filho com Celso. Carmem acha que o rapaz tem mais é que sonhar que o casarão com piscina será dele um dia. Já Celso acha que é preciso abrir os olhos do garoto que a vida é muito difícil pra eles, e aquilo não passa de um sonho. E essa discussão está longe de acabar.
Paraíso.
Texto censurado por falta de discrição sobre quem é a musa inspiradora dos últimos textos.
Lei de Murphy.
Tava tendo um pesadelo. De repente caio da cama. Pelo menos o pesadelo acabava. Será? Olho para o relógio e estou 15 minutos atrasado em relação à hora que costumo acordar para ir trabalhar. Me arrumo em 5 minutos e saio correndo para não perder o ônibus. Chego a ver o ônibus indo embora, junto com minha pontualidade profissional. Pelo menos o dia estava lindo. Estava. O outro ônibus chegou, e assim que entrei começa a cair uma tempestade. O maldito povinho daquele ônibus lotado resolve fechar todas as janelas para não se molhar. Enquanto isso fico suportando aquele bafo mortal se sovaco fedido. Pelo menos sou um cara precavido que sempre está com seu guarda-chuvas. Desço do sovaco fedido enlatado e logo piso numa poça d'água. Duas quadras pra frente, o guarda-chuvas se arrebenta com a ventania e saio correndo pelas duas quadras que faltam para o meu trabalho. Chego encharcado, mas acabo nem levando mijada alguma do meu patrão. Ele só fala "passa na minha salinha antes de ir embora". Sou manobrista de estacionamento. Modéstia a parte, nisso sou bom. Mas não é que nesse dia "maravilhoso" eu consegui arranhar o carro mais caro que apareceu por lá no último mês. Depois que estava indo embora descobri que eu estava sendo demitido. E agora, quase todo dinheiro da minha demissão ía para concertar a maldita Mercedes que arranhei numa coluna do estacionamento hoje. Tava puto e resolvi voltar pra casa a pé. Me assaltaram e levaram o celular que eu nem tinha pago ainda. Chego em casa puto e começo a ler. A luz acaba. Meu chuveiro é elétrico. Morrendo de dor de barriga, vou para o banheiro e não tem papel. Tomo um banho gelado por higiene. Depois disso ligo para uma pessoa especial, que não estava em casa, e resolvo deixar recado para me ligar assim que chegar. Fico das 19h até as 23h30min esperando por esse telefonema no escuro. Até que enfim o telefone resolve tocar. Era meu irmão pedindo dinheiro emprestado. As 23h58min toca o telefone de novo. Era ela. Depois de quase um mês sem ter notícias, ouço a voz dela. E isso me valeu o dia.
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Na verdade meu dia nem foi tão ruím assim. Na verdade o meio de comunicação nem foi o telefone. E, na verdade, o recado ainda nem foi respondido. Tomara que seja "ainda" mesmo.
Você pode ir na janela.
Mais uma vez estou no “meu” ônibus, seguindo meu rumo. Sentado sozinho vendo a paisagem e ouvindo Los Hermanos num disk-man que peguei emprestado. De repente entra a mais bela moça e passa pela catraca. O tempo pára. Eu acabava de começar a ouvir “Último Romance”. Só tive tempo de ouvir o primeiro verso. Ela estava de pé esperando por um lugar. A moça que estava sentada ao meu lado anteriormente, depois de mudar de lugar dentro do ônibus, enfim desceu. O tempo continua paralisado. Ela continua olhando para os lados para decidir onde sentar. Meus olhos gritam para que ela se sente ao meu lado. Não quero olhar para trás ou para os lados. Possivelmente haja muitos assentos onde ela possa se acomodar. Prefiro continuar com os olhares berrantes que a indicam a vaga ao meu lado. E assim continuarei até que ela decida onde se sentar. Caso resolva sentar-se ao meu lado, faço questão de deixá-la na janela. Torço também para que esse ônibus faça a mais bela viagem, a qual apenas começou. E que ela veja uma linda paisagem, de preferência sentada ao meu lado.
[ Inspirado na música "Você Pode Ir Na Janela - Gram ". ]
Dourada.
“Enche o tanque por favor!?. Obrigado.” Depois de um bom tempo com a gasolina na reserva, estou pronto para uma nova viagem. O tanque está cheio, o carro voltou da revisão. Tudo perfeito. Agora só falta decidir o destino. Tenho convites para uma cidadezinha aqui perto que costumo ir, e para uma prainha, também aqui perto, que nunca fui por nunca me interessar. Em compensação, depois que vi um catálogo de uma empresa de turismo, me encantei com uma praia chamada Dourada. Mar cristalino, temperatura agradabilíssima, arquitetura simples e bela. Enfim. Um lugar perfeito, não só para se passar as férias, mas para se morar. Um sonho. É claro que eu abro mão dos outros convites para ir até Dourada. Só há um probleminha. O caminho até lá, é muito, mas muito mais longo do que as demais opções, pelo que eu sei. Disposição e paciência para, sozinho, pegar a estrada, e viajar até lá não me faltam. O que falta é a certeza de que conseguirei chegar ao meu sonhado destino. Meu carro é simples. Não faço idéia de que estradas terei que encarar para conseguir chegar lá. O dinheiro é curto. Se um tanque for pouco para essa viagem, meu carro pode me deixar na mão. Também não conheço ninguém que possa realmente me ajudar a chegar em Dourada. Um ou outro amigo sabe me falar um pouco sobre como realmente é bela a praia. Mas ninguém sabe exatamente como chegar lá, quanto de gasolina é necessário e se, chegando lá, conseguirei ou não um abrigo.
Ah, não adianta nem sugerir, porque para chegar onde quero não existe mapa capaz de me guiar. Me desejem “boa viagem”.
Anti-herói.
Olá. Sou um menino de 10 anos de idade. Estou no fim da quarta série, ano que vem está chegando e irei para o que minha avó chama de ginásio. Quinta série. É lá que estuda a mais bela menina do colégio. Aquela que é impossível não se apaixonar. Logo eu, uma criança tímida e boba, sou a isca perfeita para me agrupar ao grande grupo dos apaixonados pela menina da quinta série. E como ela é apaixonante. Linda, simpática, engraçada, estilo mocinha de filme americano. Mas tem um enorme problema. Essas moças, em filmes americanos, acabam com os populares mocinhos de filmes americanos. E eu, definitivamente, sou muito bobo pra ser um herói. Dependendo do ponto de vista posso ser no máximo um anti-herói. Mas ela merece mais que um anti-herói. Impossível imaginar um casal formado pela Julieta, de Shakespeare e Dom Quixote de
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